Para a tradição de Yoga, o nascimento não é simplesmente um começo, é uma continuação de uma história maior que a cada nascimento é recontada por outra perspectiva. Não podemos nos apressar para entender o que é o nascimento é preciso olhar isso com cuidado.
Por um lado, podemos falar em reencarnação, por outro não. No yoga, o termo que melhor define esse acontecimento é transmigração.
Não podemos falar em reencarnação por questões bastante objetivas: para sermos quem somos, precisamos de nossa história. Dos pais de quem nascemos, do nome que recebemos, da família que nos criou, das escolas que estudamos, dos amigos que tivemos e de todas as alegrias e tristezas que vivemos, e mesmo nessa vida que vivemos agora, passamos por diversas mudanças e transformações. Um acontecimento bastante comum que traz grandes mudanças é quando nasce um filho – as prioridades mudam, os planos mudam e muitas vezes, até mesmo a tolerância à dor e angústias mudam. Agora, adulto, você provavelmente não faz mais uma porção de coisas que fazia quando era criança.
Toda a nossa história, tudo aquilo que forma o que somos, está ancorado no corpo, nesse corpo que temos agora e que um dia irá morrer.
Sem esse corpo, como essas histórias podem existir?
Tive a sorte de crescer no interior. Nadar no rio, andar de bicicleta só de chinelos e bermuda, roubar frutas do vizinho, brincar de guerra de mamona com estilingue, e ralar os joelhos trinta vezes por semana. Lembro até hoje da sensação de entrar no chuveiro todo ralado, tudo ardendo e muitas vezes escondido da minha mãe!
Sem esse corpo, essas memórias não existiriam.
Mas, por outro lado, poderíamos sim pensar em reencarnação, mas é preciso entender cuidadosamente o que reencarna. O Sāṁkhya Kārikā, uma das principais escrituras do Yoga e que fundamenta todo o conhecimento do Yoga nos diz que:
O Dharma e etc (a virtude e as outras disposições) são inatas ou são adquiridas. São vistas como residindo em Buddhi, o óvulo. O resto reside no corpo. Sāṁkhya Kārikā – verso 43.
Para o Yoga, o que reencarna, ou melhor, transmigra, não é algum tipo de alma ou espírito semelhante a o que somos agora. Essa imagem que temos de nós mesmos é construída, em grande parte, através das sensações que o próprio corpo traz. O que reencarna são nossas tendências mais profundas e elas se alojam em Buddhi, a porção mais profunda da mente.
Todas as experiências que temos na vida geram uma sensação interna, quer estejamos percebendo, quer não. Se minha vida for muito agitada, cheia de compromissos, agenda cheia, vou cultivar em minha mente a pressa, a agitação, a ansiedade. Se essa rotina se sustentar por muito tempo, ela passa a criar uma marca, uma impressão profunda na mente de ansiedade e agitação. Quanto mais isso se mantém, mais profunda é essa marca. Por outro lado, posso cultivar hábitos de cuidado com as coisas, de atenção, de reflexão, sensibilidade e outras marcas serão criadas.
Um médico passa anos estudando para ser médico e depois que se forma, geralmente trabalha muito por muitos anos. A marca se torna tão forte que é comum médicos serem chamados de doutores em ambientes completamente alheios a sua rotina de trabalho. E não seria nada surpreendente o médico se sentir médico a todo momento.
Quanto mais profundas são essas marcas, menos individualizadas elas são. Possivelmente muitos médicos se sentem médicos a todo momento. E assim é com todos os outros talentos, habilidades e padrões emocionais. Nada é completamente inédito. Muitas pessoas nascem com maiores habilidades para o desenho, muitas outras para cuidar de animais, outras para ganhar dinheiro, outras para construir pontes (reais ou metafóricas). E da mesma forma é com nossos sentimentos: todos amamos, desejamos, sentimos raiva, temos medo.
Essas marcas que as experiências geram, são muito diferentes entre elas em sua superfície, na parte mais externa, ou seja, naquilo que aparece em nós, aparece no corpo, em nossas ações, mas em sua profundidade, vão ficando cada vez menos diversas pois vão se somando umas às outras e se tornando maiores.
Ao nosso redor existe uma quantidade enorme de alimentos muito saborosos e diversos entre si, mas no fundo da mente o que existe é o prazer por comer bem. Muitas pessoas diferentes se preocupam em cuidar do corpo de muitas formas diferentes, mas o que existe no fundo da mente, é o apego ao corpo. Uma criança é abandonada, uma mãe é abandonada pelos pais, um amante por sua amada, mas o que fica no fundo da mente é a sensação de abandono. Posso ter raiva da política, do time adversário, ou do colega de trabalho, mas o que fica no fundo da mente é a raiva.
No corpo e no mundo ao redor temos uma diversidade de experiências, mas quanto mais elas se sustentam e se aprofundam, menos diversas elas se tornam. E são elas que residem em Buddhi.
Para o Yoga, é esse aglomerado de experiências que reencarna, ou melhor, transmigra, no entanto, ainda é algo individual e não coletivo – é individual, mas não pessoal.
A personalidade é construída na relação com o mundo na medida em que a pessoa, com seu corpo, se relaciona com o mundo. Aquilo que na primeira infância começou com sensações muito difusas e ações cujo único propósito era experimentar o mundo com o corpo, se torna uma miríade de experiências e sensações na vida adulta, mas que tem como lastro, o corpo.
Quando o corpo se vai, a parte das impressões que se relaciona com o corpo também se vai, ficando somente os substratos mais profundos desses padrões, a sua parte que, de tão profunda, não se relaciona mais com aquele corpo. Essas impressões, que residem nessa parte profunda da mente, reencarnam.
Ao mesmo tempo em que essas impressões profundas se descolam da personalidade, existe uma outra parte da mente chamada Ahaṃkāra que é responsável por sustentar o funcionamento da individualidade e que, junto com Buddhi, é capaz de continuar existindo após a morte do corpo. É devido ao Ahaṃkāra que, a partir dos padrões profundos que ficaram marcados em Buddhi, uma personalidade se desenvolverá na medida em que esse ser entrar em contato com os desafios de sua nova vida.
Portanto, eu e você recebemos uma herança, mas nunca existimos antes como somos agora. O que o Yoga nos provoca a pensar é: o que faremos com essa herança?
Alguns versos que orbitam esse tema e podem auxiliar você em suas reflexões:
Bhagavad Gītā – 2.27
Pois a morte é, de fato, certa para tudo o que nasce, e o renascimento é certo para aquilo que morre; portanto, você não deve lamentar o que é inevitável.
Yogasūtra – 2.39
Quando há firmeza na não-possessividade (aparigraha), surge a compreensão da causa e do propósito do nascimento (janma).
Sāṁkhya Kārikā – 39
Os corpos sutis, os corpos nascidos dos pais e os corpos feitos dos 5 elementos são os 3 tipos específicos. Desses, os corpos sutis são duradouros e os corpos nascidos dos pais são perecíveis.
Sāṁkhya Kārikā – 40
O corpo sutil, que foi produzido lá no início dessa era, é um corpo que não pode ser aprisionado [não é preso ao corpo físico], é constante e composto por tattvas, começando por Mahat e terminando nos tanmātra-s. Tansmigra, é livre de experiências sensoriais e marcado por disposições de Buddhi.
Foto do post por Frank Alarcon na Unsplash
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